FOME E FRIO: Moradores de CG doam macarrão com sardinha e agasalhos a pessoas que vivem na rua

Entrega do macarrão – Fotos: Stephanie Jerônimo

Para combater aquilo que o presidente da República Jair Bolsonaro (PSL) disse não existir no Brasil, a fome, alguns moradores da cidade de Campina Grande, no Agreste da Paraíba, estão distribuindo alimentos a pessoas que vivem nas ruas. A ajuda também pode ser em roupas. Semanalmente, quatro voluntários se unem com o preparo do famoso macarrão com sardinha que é doado em quentinhas. O projeto “Dia do fazer o bem“, criado pelo diretor adjunto da Ação Solidária Adventista (Asa), Osvaldo Bernardo da Silva, distribuiu, neste sábado (20), cerca de 70 quentinhas.

Moradora recebe comida e cobertor

Mais uma vez, mais uma semana, ele, duas filhas, um amigo professor universitário e outros ajudantes colocam este projeto nas ruas. Neste sábado, eles passaram pelo Centro da cidade e bairro da Bela Vista. “Além da questão religiosa, de servir ao próximo, de atender aos mais necessitados, tem a questão social mesmo. Nós não podemos mais ignorar, fingir que não existem pessoas com fome e com frio nas ruas”, disse.

O projeto existe a quatro anos e começou com um sopão mensal. Devido à quantidade de pessoas em estado de miséria que foram sendo atraídas, sempre crescente, foi preciso adaptar o projeto para a distribuição semanal e de uma comida mais nutritiva. Atualmente, funciona com a compra dos alimentos pelo professor Valclécio, amigo de Osvaldo. As duas filhas Tahis e Stephanie Jerônimo são as cozinheiras e lavadeiras do que for utilizado na cozinha. Elas e o pai saem pelas ruas distribuindo o macarrão com sardinha. Alguns frequentadores da igreja que eles fazem parte também apoiam.

Filhas entregam com o pai as quentinhas

“Nós conseguimos ajuda de um empresário, que também ajuda com alimentos. Começamos este projeto com sopão, mas, para agilizar melhor e atender mais pessoas, mudamos pro macarrão. Outra ação que realizamos, anualmente, é o ‘Natal dos esquecidos’, que realizamos com a empresa Nordmarc. Em 2018, nós fizemos no Jardim Continental, para dezenas de moradores”, detalhou.

Moradora recebe cobertores

Frio – Na segunda-feira (15), o grupo entregou lençóis para alguns moradores das ruas centrais de Campina Grande, a cidade que chega a 15º nesses meses frios de junho a agosto. Neste sábado, antes da entrega do macarrão, o grupo conseguiu uns kits de roupas para doar junto com os alimentos e agasalhos. Quem tiver interesse em doar, basta acessar o Osvaldo pelo (83) 98117-6518 ou pela rede do Instagram.

“Eles estão precisando basicamente de alimentos. Se quiserem doar para o projeto, para atendermos cada vez mais moradores de rua e em mais outros pontos, é nos doar macarrão, sardinha, milho verde, molho de tomate, as quentinhas, óleo, cebolas e também os agasalhos”, elencou Osvaldo.

Estatísticas – A declaração do presidente é rebatida por estatísticas recentes de instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Bolsonaro foi criticado por especialistas em economia e evolução de índices sociais no país.

O Relatório do Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e Caribe 2018, divulgado em novembro pela ONU, mostrou o crescimento da fome no Brasil. O estudo estimou que a desnutrição alcançou até 5,2 milhões de brasileiros entre 2015 e 2017, ante os 5,1 milhões calculados para os triênios 2014-2016 e 2013-2015. No triênio 2000-2002, 18,8 milhões de brasileiros sofriam com a fome.

Segundo o IBGE, em números relativos a 2017, há 54,8 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza, dos quais 25,5 milhões (45%) estavam no Nordeste. O Ipea mostrou que a proporção de miseráveis no país subiu de 6,6% para 7,4% de 2016 para 2017. O Ipea classifica como miseráveis os que vivem com um rendimento médio domiciliar per capita de até um quarto do salário mínimo.

O economista e diretor da FGV Social, Marcelo Neri, afirma que estudos revelam aumento também na percepção de pobreza. “Os dados mostram que, ano passado, 30% dos brasileiros diziam que não tinham dinheiro para comprar alimentos necessários a si e sua família”, cita. Extrema pobreza é não ter dinheiro para atender despesas alimentares. Há uma piora social nos últimos anos. Isso se relaciona com a recessão, o congelamento do Bolsa Família em 2015 e a maior inflação no mesmo ano.

Vulnerabilidade –Para o coordenador executivo da Ação da Cidadania, Kiko Afonso, a fala de Bolsonaro demonstra que ele não conhece o Brasil. “O presidente mostra desconhecimento sobre o que é fome e insegurança alimentar, porque a pessoa não precisa estar esquelética para estar nessa condição”, disse.

Pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Francisco Menezes explica a relação entre o aumento da pobreza no país e o aumento da fome. “A gente associa a questão da fome a uma situação de vulnerabilidade a essa condição. Não significa que as pessoas estão permanentemente em estado de fome, mas elas buscam as mais diversas formas para sanar essa carência”, falou.

A declaração de Bolsonaro repercutiu também no mundo político. O senador Otto Alencar, líder do PSD, se disse “estarrecido”. “Ele não sabe o que se passa no interior do Brasil. Será que ele não entende a miséria da periferia do Rio? Não sabe que tem 15 milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza? É um disparate”, exclamou.

Valdívia Costa/ PB Debate com O Globo

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