Das tripas coração: Mães reféns do amor e das privações impostas pela vida

“O conselho que dou para outras mães é que nunca desistam, porque todas são guerreiras… Não desistam e levantem a cabeça assim como eu levantei”.
A Associação Viva Brasil realizou no último sábado (8) mais um Dia de Solidariedade no Bairro da Ramadinha, em Campina Grande. Dessa vez, além da distribuição de cestas básicas, foi realizada uma ação com as crianças que puderam desfrutar de um momento lúdico com direito a músicas, guloseimas e atividades pedagógicas.

As mães beneficiárias não ficaram de fora. Além de se emocionarem ao som de músicas especiais interpretadas em saxofone por um dos integrantes da associação, também receberam um mimo em alusão ao dia das mães, comemorado hoje (9).

“Fiz questão de contribuir com essas lembrancinhas, porque é importante para essas mães sentirem-se queridas e bem cuidadas. São com essas pequenas demonstrações que podemos alegrar o dia dessas pessoas que não precisam de muito para sorrirem. É sobre fazer pelo outro o que gostaríamos que fosse feito por nós”, expressou Flávia Faustino, integrante do VIVA responsável pelas doações dos kits de beleza.

Cheirando a limpeza e a banho recém tomado, ainda ostentando os cabelos molhados, Dona Josélia Gomes, 44 anos, não segurou as lágrimas e se emocionou – por coisas que vão bem além do que estava sendo vivenciado naquele momento específico.

Josélia é mãe de três. Um dos seus filhos foi assassinado quando tinha apenas 19 anos. Ser “namorador” demais foi o erro que o fez pagar com a vida, segundo ela. Falando em pagar com a vida, seu outro filho, o mais novo, entrou em depressão com a morte do irmão, precisando ser internado por três vezes consecutivas, e atualmente está preso. Já são 6 meses que ele teve sua liberdade privada, e ela, consequentemente, seus sorrisos arrancados.

Mãe refém. Uma realidade que atinge milhares de mulheres em todo o país. Quem tem um filho, esposo ou irmão preso vive também um tipo de prisão, que inclui medo, constrangimentos, mas também muita esperança.
A história de Josélia é feita de força, partidas e muita dor.
Atualmente mora sozinha em uma casa alugada, mas precisa buscar meios para sustentar a família, já que tem três netos que são os responsáveis pela pouca felicidade que ainda tem.

Seus filhos nunca tiveram o pai por perto, nunca se interessou por eles, e seu último companheiro foi assassinado há 12 anos, desde então ela trava brigas diárias pela sobrevivência.
Para garantir o sustento, trabalha na “matança” duas vezes por semana. “Eu sou fateira, trato dos miúdos, das tripas dos bois, essas coisas. E assim vou levando… Têm ajuda de um, tem ajuda de outro. E depois das doações do VIVA, que chegaram no momento certo, eu não me preocupo tanto, porque o básico é garantido, né?”, fala com a voz abafada pela emoção e pela máscara de proteção.

Sobre o dia das mães, ela não deseja presente nenhum… ou melhor, depois de pensar um pouco, cospe palavras urgentes ao dizer que o que a deixaria feliz seria a liberdade do seu filho.
Presença como presente. Ela sonha em vê-lo trabalhando, cuidando do seu neto recém-nascido, dando-lhe um orgulho que ela nunca teve a oportunidade de sentir. Órfã de filhos em uma vida privada de inúmeras alegrias.

Contradizendo as situações impostas dolorosamente pela vida, Josélia minimiza as dificuldades ao enfatizar o tamanho do amor que sente pelos seus filhos, e insiste em continuar acreditando nas pessoas.
“Se eu cair não vai ter ninguém pelos meus filhos”, sustenta.
“Eu prefiro continuar acreditando nas pessoas. Tudo isso vai mudar, eu acredito que Deus nunca nos desampara. Sou uma guerreira por tudo o que já passei até hoje. Tenho orgulho da minha história, porque o que estou te dizendo é só uma parte dela. Muitos se admiram por eu ainda estar em pé. Nada melhor que um dia após o outro. Não baixo a minha cabeça”, relata trêmula com uma emoção gritante em suas palavras.

Josélia tem pressa. Tenta disfarçar a ansiedade. O tempo segue insistindo em pressioná-la. Não tem mais tempo, nem se permite perder mais nada. Ela confessa que já está atrasada para visitar o filho no presídio – privilégio do dia das mães – já são dois meses sem vê-lo devido à pandemia.

A equipe da associação priorizou a entrega da sua cesta para que ela não perdesse o horário da visita ao filho na prisão. Ela agradeceu com palavras e com um olhar que disse mais que qualquer outra coisa.

“Eu vivo numa situação que essa doação de vocês já me ajuda bastante para levar comida pro meu filho. Um quilo de feijão, um quilo de arroz que tiro e levo pra ele faz toda a diferença…”, diz.
Quem tem amor, medo e fome, tem pressa.

Fonte: Associação Viva Brasil

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